quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Clarice define

"De repente as coisas não precisam mais fazer sentido. Satisfaço-me em ser. Tu és? Tenho certeza que sim. O não sentido das coisas me faz ter um sorriso de complacência. Decerto tudo deve estar sendo o que é.
(...)
Escrevo ou não escrevo?
(...)
Quero escrever esquálido e estrutural como o resultado de esquadros, compassos e agudos ângulos de estreito enigmático triângulo.

"Escrever" existe por si mesmo? Não. É apenas o reflexo de uma coisa que pergunta. Eu trabalho com o inesperado. Escrevo como escrevo sem saber como e por quê - é por fatalidade de voz. O meu timbre sou eu. Escrever é uma indagação. É assim:?
(...)
Eu tenho que ter paciência pois os frutos serão surpreendentes..."
(Clarice Lispector)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

"Tarda, mai num faia"

Como se fosse ar ela disse necessitar,
disse que era o fim, mas sabia que seria o início de um longo penar.
A pobre menina, que assim se fazia, esquecera as boas maneiras, era apenas ela, somente ela.
Ego e vida, vida e ego.
Ecoou, de repente.
Como diria vó Tereza:  "num faiz pro otro o que num qué procê"
                                   "tarda fia, mai num faia".

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A quase vida de Alice - parte 1 - O hospital



Respirava profundamente, meus pulmões pareciam enxer, mas não sentia o ar. Tive medo de abrir os olhos, parecia estar frio ali (onde quer que fosse). Passei a língua em meus lábios e percebi que não havia molhado-os, e o gosto?! Onde estava o gosto?!
Respirei novamente, mesmo nada entrando por minhas narinas; abri os olhos.
Estava escuro e permaneci deitada em algo que supunha ser uma mesa, olhei e vi um lençol grosso sobre meu corpo. De repente percebi.
- MEU DEUS, ESTOU MORTA?!
Gritei, o mais algo que pude, mas ninguém parecia se aproximar, o único som que ouvi foi de minha própria voz ecoando em meio ao nada. Permaneci imóvel, nem chorar conseguia, não haviam lágrimas. Será que eu conseguiria levantar? Andar?
Hesitei nos primeiros minutos e finalmente tive coragem, levantei. Conseguia caminhar, enxergava (mesmo com toda a escuridão) e ouvia, parecia ter perdido os outros sentidos, não reconhecia pequenos detalhes.
Vi um pequeno feixe de luz e resolivi segui-lo. Cheguei a um imenso corredor, vazio. Gritei novamente. Nada. Ninguém. Apenas medo, muito medo.
Continuei, fui abrindo portas e tudo que encontrava eram leitos vazios, cores opacas, cadeiras velhas, janelas trancadas, pedaços de colchões, além da tristeza e solidão. Não havia vida.